domingo, 27 de maio de 2012

Preservar para pensar


Ouvindo: Landslide do Fleetwood Mac.

            Da neblina que cerrava minha visão, uma luz se fez e disciplinou as gotículas que formavam aquela barreira tangente. Aquela mesma nuvem que pairava, me cegava; transtornava. Queria acreditar que vivia no inverno londrino, sob as temperaturas baixas e o quase permanente clima nublado. Os raios do sol que eram ateados sobre meu corpo, esconderam-se. As vozes que afligiam o inconsciente da minha alma emudeceram. Os gritos já não eram mais ouvidos, emudeceram. Restava a paz.

            E que assim seja. A paz que trago agora em meus braços não se comparam àquelas que antes me atingia. A sofreguidão de outrora desaparecera como a chuva no sul do Brasil. Durante toda a estiagem de sofrimento e angústia, eis que surge a precipitação de lágrimas sorridentes, que corro em atingi-las com minhas mãos, sorrindo e deixando-as escorrer sobre meu rosto. Sorrio diante da umidade que se cria sobre minha pele. Enfim, sinto a paz.

      
            Hoje tenho pressa. Corro e, ao que parece, fico no mesmo lugar. Caminho, mas permaneço parado. Durmo, mas sinto tudo continuas acordado. Os sonhos rarearam. As noites longas escassearam. Os dias encurtam, as palavras faltam, os sons tomam conta. A música paira e penetra nos sonhos que não sonho, durante as noites que não durmo, nos dias em que acordo e nas tarefas que não faço. A calmaria teima em seguir, onde for, onde quer, onde deve, onde sente o desejo de paz. 

            
            Além dos devaneios, a falta de chuva que hoje atormenta muitos, me preocupa. Vivemos em um mundo onde há muita água; salgada. Devemos reduzir o sal e as gorduras das nossas refeições. Pode causar hipertensão. Não adianta, só sentimos falta de algo quando não o temos mais. E, apesar de tudo, tentamos valorizar, mas parece que o valor devido não é o suficiente. Necessitamos de mais; chorar. A falta não proporciona a paz, como se houvesse uma dependência química, hipossuficiente.

            O que me faz refletir em paz é a falta. Sinto falta quando estou longe. Sinto paz quando estou perto. Sinto a necessidade de estar perto, de sentir perto, de saber que está por perto. Mesmo longe, preciso estar perto. Devaneios acerca de um tema escasso, persistente, permanente, presente. Senti sede e não tinha água; sofreguidão. Tive de esperar sair e buscar, beber e saciar. A sede dói, corrói, machuca, entristece, preocupa, adoenta, enlouquece.

            Preservar é um dos laços que devemos ter para com todos. Preservar os laços afetivos na família, com os filhos, com os irmãos. Preservar os laços com os colegas, amigos, vizinhos, inimigos. Lutar por preservar antes que seja tarde demais, antes que falte. A falta dói, corrói, machuca, preocupa; enlouquece. É necessário preservar. Preservar a vida, os laços, a água, o amor, a compaixão, o carinho, o respeito, a vida. É necessário estreitar os laços, é necessária a preservação da paz em cada um.

Ouvindo:  Man on the Silver Mountain do Rainbow. 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A tentativa


* Coluna do Diário do Meio Oeste, veiculada dia 17 de março. 
Aos novos ajudantes do Mendigo, cabe uma explicação rápida: os textos mais recentes são colunas que escrevo, semanalmente, no jornal Diário do Meio Oeste. 


Ouvindo: Hells Bells do AC/DC.

Há mais de dois meses que não fumo. Sinto saudades do meu velho companheiro. Sinto saudades, de vez em quando falta, mas fico mais feliz sabendo que ele se encontra bem protegido, atrás de um balcão. E que fique lá. Entretanto, alguns outros permanecem passeando no bolso ou na bolsa de muitas outras pessoas. Não morri. Prova é que estou escrevendo, sentando e ouvindo o Brian Johnson cantar. 

A propósito, não parei. Devo fazer esta retificação: estou tentando. Nem sei se pararei algum dia. Ouvi dias atrás que parar de fumar é fácil. Conta o sujeito: “Meu avô diz que parar de fumar é a coisa mais fácil do mundo. Já parou, sozinho e sem ajuda, 32 vezes!”. Apenas faz mais de dois meses que não vejo o “zé”. Quando cruzo a rua, vejo o “zé” na mão ou boca de alguns. Aquele cheirinho tão bom.

Não fiquei doente; tampouco louco. Apenas fui abatido pela insônia, inquietude, um pouco de irritação e fome. Ah! E muita fome. Estou quase um porco (tal qual um de granja). Nunca antes fui de comer tanto (mas agora em menor quantidade), mas parece que ocupava os tempos de janela para ir procurar algo no refrigerador ou nos armários. Engraçado, nem eu sabia que tinha biscoito recheado em casa!  E eles são bem gostosos.

Para matar o desejo (parecia que eu estava grávido), já me deliciava com um pacote inteiro e um copão de café com leite. E ainda tinha fome. Tentava dormir. Tentei, mas meus olhos pareciam sempre abertos. Apenas dormindo é que eu não sentia fome. Sentia fome, mas não o desejo de rever o “zé”. Não é fácil, apesar das minhas brincadeiras verídicas e que enfrentei há poucos dias.


Porém, não pedi para ninguém parar de fumar, nem fumar longe, muito menos campanha para obrigar as pessoas em deixar o cigarro. Vivemos em um país livre. Bom, a liberdade não é absoluta. Nem a Constituição Federal, muitos menos suas infindáveis compreensões, deixa o pais ser livre, por mais que assim o pregam. Fumar não é permitido aqui, nem ali, nem lá, acolá também não. E a liberdade do fumante?

Queria saber o motivo de ninguém proibir os carros de circularem, pois são eles os causadores do efeito estufa e de problemas respiratórios em muitas pessoas, mesmo aquelas que andam de bicicleta. Ainda por cima, o cheiro da fumaça do escapamento também não é aroma de um bom perfume. Ninguém reclama do cheiro, mas caso passe algum fumante, já vão alguns elogios pelas costas.

Não quero defender o uso, mas a liberdade de escolha. O fumo é uma droga lícita. Nunca reclamei de alguma pessoa que anda com roupa amarela. Por mais que eu não goste, respeito e não tenho direito de falar um “a” contra. Caso me sinta mal do lado dela, vou para outro lado. Não vejo a necessidade de pedir para que ela saia daquele local e vá esperar, ou ficar parada, em outro lado com sua roupa amarela.

O país deve ser livre e o respeito deve perdurar. Quem sabe eu esteja parando de fumar por causa do cheiro perto de minha filha. Não havia pensado nisso, mas pode ser uma razão. Apenas me sinto mais confortável em ficar ao lado das pessoas, da minha filha. Não sei se sinto-me melhor, mas imagino que posso conviver com a falta do “zé”, por mais que me traga boas recordações durante os vários anos de noivado.

Ouvindo: Headless Cross do Black Sabbath.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Na beiradinha da ponte


Ouvindo: Immigrant Song do Led Zeppelin.


            Caso avaliemos a história da colonização, o município de Videira foi formado por imigrantes. Alguns diziam que já existiam nativos, quiçá bugres. Mas podemos dividir em meio a meio. De um lado do rio os italianos, do outros, os alemães. A maior parte chegou do Rio Grande do Sul. Não tiveram a chance de pesquisar na internet ou ligar para algum conhecido pedindo como era a localidade, tampouco visitar e avaliar melhor. De forma decidida, colocaram seus pertences sobre os lombos de cavalos e seguiram uma trilha, ainda inexistente.

            Foram obrigados a ceifar o mato que estava na frente. Os que saíram depois avistaram rastros pela frente. Heroicos desbravadores. Corajosas famílias. Pode-se dizer loucos? Loucos por andar tanto, em um lugar desconhecido, sob o mato fechado, os morros, os perigos das estradas que ainda não existiam. A civilização.  Loucos por seguirem suas vidas, mesmo que involuntariamente, e serem eternamente agradecidos pelo sofrimento e perseverança dos que os sucederam. Quem relembra e pensa nisso, mesmo que apenas por hoje, pode tentar imaginar o quão sofrido foi aquele tempo.  




            Videira completa hoje 68 anos. Cheguei aqui logo depois de celebrar os 62. Lembro que foi “ontem” quando desembarquei na rodoviária.  Passavam três minutos da meia-noite e nem sabia onde é que eu pegaria o táxi que me levaria à pensão. Tive a felicidade (e satisfação) de desbravar esta terra com tudo ajeitado: lugar para morar, trabalho e o pensamento de vir e ficar. Saí. Passei um tempo fora e retornei. Hoje, sou um videirense. Um gaúcho de Videira. Como muitos gaúchos, não negamos a raça, mas também não escondemos o orgulho daqui.


            Bebi da tão famosa água do Rio do Peixe. Morava de um lado da ponte. Até acostumar a atravessar o rio (e enfrentar meu receio por pontes) foram-se alguns dias. Ou muitos dias. Ainda caminho mais na beiradinha do lado da rua. Quando cruzo a ponte, recordo de como vim para cá. Vim sem conhecer, sem saber onde ficava, sem uma mínima noção de clima, de povo, de sotaques, de culturas, da economia. Como muitos, cheguei sem saber onde estava. Normal para qualquer imigrante. Oas poucos fui descobrindo, me encantando.

            Cheguei, gostei, bebi da água da Casan e finquei raízes. Aqui estou, depois de seis curtos anos. Parece que foi ontem que cheguei com minha mala. Agora, sou videirense. Um gaúcho de Videira. Não perdi minhas raízes, minha base. Apenas acrescentei minha base videirense. Prova disso é minha filha, minha família. Aqui se planta e aqui se colhe. Com chuva, com sol ou com granizo, aqui se planta e aqui se colhe todos os dias. Eu plantei o amor e colhi a minha filha, aqui, nesta terra que me acolheu tão bem e ainda o faz. Parabéns para todos nós.


Ouvindo: You're Gonna Need Someone On Your Side do Morrissey. 

sábado, 28 de abril de 2012

Um rom rom


Ouvindo: Summer Rain do Whitesnake.

Os meus verões nunca mais serão os mesmo do que foram nos últimos 30 anos. A partir do ano que vem, poderei caminhar, fim da tarde ou de noite, de mãos dadas com minha filha. Uns passos e depois com ela em meu colo. Estou ansioso pela chegada deste momento. Deixar um pouco as muralhas protetoras de nosso lar e desfrutar da natureza. Deixá-la sentir o cheiro do ar, a fumaça dos carros, as cores do mundo, os sons da natureza (e do homem!!).
Porém, nem tudo é tão perfeito quanto parece (apenas minha filha! rsrsrs). A natureza cresce sem fazer barulho. Bom, quando tem de fazer barulho, é para derrubar o que o homem construiu. Mas como é que o homem, por menor que seja, pode ser tão barulhento? Fico pensando em até mudar, morar em um local mais silencioso. Não para meu benefício, mas do sensível sistema de audição da pequenina. Já sou grandinho e não me importo tanto, mas com os pequenos sim.
Até nosso gato, o Átila, se assusta com um tum-tum-tum ou aquele nheco-nheco-nheco que teima em transitar. De qualquer forma, é minha forma de protesto e de causar reflexões. Apenas ando mais silencioso e, infelizmente, mais ausente. Ando querendo fazer tudo mais rápido para voltar mais cedo e ver a minha pequenina dormindo (e como dorme). Não me importo, mas apenas estar pertinho, ouvir as resmungadas durante o sono, ou mesmo olhar suas caretinhas.

É muito fofo ficar olhando e ver algumas expressões: sorrindo, brava, feliz, preocupada. Daquele tamanhinho já franzindo a testa? Mas deixa crescer e verá que isso é normal. São expressões faciais e que, dizem, são involuntárias. Espero que sim, pois toda vez que eu vou dar um beijo nela, franze a testa e faz cara feia. Pode ser a barba espetando sua sensível pele ou eu falando, sussurrando, um “oi filha, cheguei!”. Tipo assim, “tá cara, deixa eu dormir!”. 

De qualquer forma, estou feliz e sei que esta felicidade tem os dias contados. Sabe o motivo? Ela crescerá. Sim, tentará subir em árvore e ouvirei um grito. Esfolará o joelho na escola. Quebrará um dente. Brigará com a amiguinha. Pedirá para viajar. Será uma adolescente. Bom, depois que passar esta fase, segundo relatos de pais, as coisas melhorar (ou pioram). Mas sejamos esperançosos de que serão melhores. Mas deve ser bem legal poder caminhar pela rua de mãos dadas com uma filha.
Conto os momentos para estar de volta, sentido o doce cheiro dela. A dádiva que nos foi dada é quanto ao barulho. O Átila faz mais barulho do que ela. E saibam que gatos não são barulhentos. Bom, quando estão no cio já é outra história. Mas, sinto que o gato não conseguiu ceder um pouco do ciúmes. Tem de aprontar e querer aparecer. Queria poder (e tentei, confesso que tentei) conversar com ele e explicar que não há competições, mas sim, um acréscimo na família. Mas ele não entendeu.
Mas não ouço tudo o que dizem, afirmam ou sugestionam sobre filhos e pets. Nem tudo o que um faz, o outro repete. As demonstrações de carinho são recíprocas, mesmo o sujeitinho felpudo não falar. Um brrr, o romrom, ao lado do ouvido ou um rabicó nos pés já é sinal de alegria, felicidade e ânimo. E que estes ânimos do verão se repitam pelos próximos. Que o sol que brilha hoje para mim, brilhe para você também, pois é inexplicável.

Ouvindo: Turn Of The Century do Yes.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Os ‘magrão’


Ouvindo: Beethoven do Deep Purple





Para ouvir uma música que gosto, tem de ser em volume alto. Bom sentir quando o fígado bate contra o estômago, o rim contra o pulmão, parecendo que eles vibram conforme os instrumentos surgem. Mas gosto de fazer isso sozinho, sem atrapalhar o sono do vizinho. Porque a música do vizinho nunca é uma que eu gosto. Pior, é aquela que eu detesto. Mas respeito.



Entrei neste assunto interessante e curioso para externar minha insatisfação. Estou ficando velho sim, mas até hoje minha audição está perfeita. E assim quero seguir. Você já percebeu como tem aquele “magrão” com um som no volume ‘dois mil‘, com carro rebaixado e andando devagar perambulando? Será que ele faz de propósito ou é surdo? Chega a tremer a vidraça das casas, vitrine de lojas, dispara até alarme. 


O “magrão” deve ser um sujeito muito feliz para escutar aquele treco que não me arrisco a dizer que é música. Deve ser uma dor de corno sem tamanho para querer externar isso para todos os pedestres, moradores, vizinhos. E ele gasta ilhares de reais em um super equipamento, apenas para azucrinar os ouvidos de todos os demais. Ele não se importa, nem com a mãe dele.

Tudo bem investir em algo que se goste. Sou favorável á isso, desde que, não invada a privacidade ou vontade alheia. A Constituição Brasileira tem a prerrogativa da liberdade de trânsito. Mas não é absoluta. O bom senso deveria prevalecer. Estou pensando em pegar meu celular e gravar a placa do sujeito, o carro, horário e o volume. Depois levar para o Ministério Público ver o que se pode fazer.
Pode não resolver, mas que sabe minimizar.

Sou favorável à liberdade, em todas as suas formas de expressão, mas desde que respeite o vizinho. Moro em uma via movimentada e isso não me atrapalha. Aliás, adoro acordar, abrir a janela do apartamento se sentir a poluição da cidade. Mas acordar todo mundo é sacanagem. Será que ele não pode fechar o vidro do carro ou escutar apenas para ele?

Ademais, são apenas homens que fazem isso. Não recordo de ter visto uma mulher com som a dois mil e rodando pela cidade, com braço para fora e circulando a 10 km/h. Caso passe um policial militar, o sujeito desliga. Depois retoma o seu divertimento. Lembro do caso de um PM. De tão sacana que era o garoto, e não reduzia o volume, “sem querer querendo” o alto falante se furou ‘sozinho’. A caneta serve.

Ando mais silencioso. Ouço a música no meu volume quando estou em casa o no carro, sozinho. O vizinho não precisa saber o que estou ouvindo. Apenas respeito, educação, bom senso. Mais do que antes, meus ruídos musicais baixaram. Tem alguém, muito frágil, dentro de casa e que ainda está conhecendo os sons. Por isso, quaisquer barulhos, em decibéis extremos, causam susto e estranheza.
Sou contra os gritos.

Não fui criado aos berros, tampouco com gritaria, apesar de serem muitas as mulheres na minha vida. Mesmo com aquele blá-blá-blá de todo hora, houve respeito acima de tudo.  Por isso, quero criar minha filha em um ambiente agradável e não hostil, barulhento, com aquele som repetitivo grunindo nos meus ouvidos e nos dela.

Ouvindo: Living On The Edge do Aerosmith.

sábado, 31 de março de 2012

Um céu mais feliz

Ouvindo: I'd Do Anything For Love (But I Won't Do That) do Meat Loaf.

Nunca dormi tão mal como nos últimos dias. Porém, são as noites mal dormidas mais contentes da minha vida. Não, não fui fazer festa, ir para a balada, cair na gandaia. As noites de sono interrompido são em função dos gracejos da minha filha. Incrível, mas ela não chora. Até que a minha gatinha deu um “miadinho” no meu colo, mas era vontade de comer. Apenas os sons dos lábios e das mãozinhas.

Resta levantar da cama, mesmo sem óculos e enxergando meio torto, pegar a pequenina no berço e levar até o “restaurante”. Brinco, mas fica entre nós, pois a mãe não deve gostar deste ‘apelido’. Depois, volta ao sono. E dorme. E como dorme. Aliás, come e dorme. E sabe, tem a quem puxar. São coisas que todos gostamos: comer e dormir. Coisa mais gostosa do mundo.


É uma experiência incrível. Creio que muitos não tiveram esta oportunidade de vida. Tive com minhas duas sobrinhas, mas não é a mesma sensação. Tem momento em que dá medo de segurar. De um ser tão frágil, pequeno, com olhos curiosos perambulando de um lado ao outro, das pernas inquietas, dos bracinhos macios e das mãozinhas desenhadas. É único e sei que é um tempo que passa correndo.

Dei o meu primeiro banho. E foi rápido: uns 12 minutos. Sério, o banho, em si, foi rápido e gostoso, mas aquela safada da roupinha bonita não dava certo. Ela olhava para o bracinho e parecia que não queria entrar.  As duas que me fiscalizavam apenas diziam: “rápido para ela não se esfriar o corpo”. Calma gente, mas foi primeiro banho na minha que dei em minha filha e foi ótimo. A fralda foi bem mais simples de colocar.


Brincadeiras de lado, é bom demais. Sinto uma ânsia tremenda de terminar o que tenho de fazer e voltar para casa. Apenas olhá-la dormindo ou assisti-la enquanto se movimenta, com paciência e ternura, como musica clássica. A pressa me foge da consciência. Sei que nunca mais a vida será a mesma. Pode ser apenas mais um número para o cadastro global, mas, para mim, é a minha vida!

            Esperamos muitos meses. Contamos os dias. Imaginamos o rosto. Tentamos adivinhar a cor dos olhos e do cabelo, o peso ou o tamanho quando chegasse ao mundo. Tenho vontade de chorar quando lembro o que minha mulher disse que ouviu no centro cirúrgico, após ela deixar o seu ambiente de desenvolvimento, “Seja bem-vinda Sofia!”. Foram as primeiras palavras dos médicos que participaram do parto.

            Já me chamam de pai fresco, pai novo, senhor, paizão, pai babão, bajulador. Sim, isso e muito mais. Aliás, adoro e tenho orgulho de cada um destes novos apelidos. Mas sabe o interessante? Poderei sair na rua com uma bolsa rosa e não ser visto com outros olhos. Até dirão: que bonita a sacola do cara. Claro, com orgulho, é da minha filha. Adorarei levar aquelas muitas sacolas para onde for, mesmo que na esquina.

            Obrigado pelos elogios e aceito todos eles. E são verdadeiros. Ela é linda. Mais linda do que uma Barbie novinha. Desde a semana passada, tenho a impressão de que o mundo ficou mais lilás. Não pela decoração, mas pela tonalidade que meus olhos vem e meu coração sente. Nem mesmo o calor danado que faz deixa-me preocupado e cansado. O mundo, aos meus olhos, está mais feliz.

Ouvindo: The Flying Lip Lock do Teg Nugent.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Eles calçaram bem

***  Pessoal, cabe recordar que os textos são antigos, das colunas que escrevo semanalmente no Jornal Diário do Meio Oeste. Sei que muitos não leram todas, tampouco se interessaram, mas é quase um roteiro, uma novela em forma de literatura jornalística. Quiçá, um desabafo sobre algum tema abstrato, mas real. ***





Ouvindo: God Gave Rock and Roll To You do Kiss.



Minha filha nasceu na quinta-feira. Foram quase 38 semanas e três dias. É um período de tempo considerável, angustiante, confuso (às vezes), preocupante, mas, quando a vida aflora, abundantemente inexplicável. Quando segurei minha filha pela primeira vez, confesso, colapsei. Felicidade, agonia, fausto, medo, receio, gáudio, enfim, uma miscelânea de sentimentos confusos e sem explicação precisa.

Não consegui ‘ler’ as fotos da revista enquanto aguardava. Foi tudo muito rápido. Deu tempo de olhar por uma porta com vidros foscos e tentar voltar para um sofá de espera. Neste meio tempo, quando pegava uma revista para “ler” as fotos, algum pequeno choro ouvi de fundo. O barulho da enceradeira se confundia, mas eu senti que era ela. A minha filha viu a luz!

Naqueles poucos minutos que se passaram depois deste som, tive de esperar. A angústia e preocupação deram lugar ao vazio. Quando o pediatra chamou, nem terminou de dizer o nome dela e já estava eu. Nem vi o rosto do médico, tampouco da enfermeira, apenas vi aquela menina, vestida com a mesma roupa que estava dentro do útero, e segurei-a. Foram os 15 segundos do vazio que senti.

Este é o vazio mais espetacular que a vida pode proporcionar. Nem a meditação do Dalai Lama me faria sentir tão bem como a ‘meditação’ proporcionada pela oportunidade de ver minha filha, conhecê-la depois de quase nove meses. A espera valeu mais do que a pena. Esta sim foi uma oportunidade única. A chance que o Pai do Céu me dispôs, me confiou, acreditou e proporcionou.

Hoje, mais do que ontem, sinto-me lisonjeado em dizer: sou pai! Na loja, a guria perguntou: “- Olá, qual o nome do senhor? Pode me chamar de pai que está super bom”. É muito gostosa ter esta sensação, esta função, este “trabalho”, seja lá o que for, ser pai. Ouvi não de um, mas de muitos pais e mães a gostosura que é ter um filho. Seja guri ou guria, filho com O ou com A, é a mesma emoção.

A espera foi recompensadora. É muito receio que se passa no tempo de formação, de espera. Os últimos dias não passavam, era o que pensava quando tentava dormir. Quando chegou, vi os quase nove meses em um piscar de olhos. Olhei pela janela do quarto, vi o sol lindo da quinta-feira já brilhando cedo, contemplativo, e agradeci. Seja lá como for meu ai do Céu, humildemente, eu agradeci.

Questionaram-me sobre como seria o desfecho desta história. Tive de pedir desculpas e dizer que não teria o final. Apenas pude dizer, orgulhoso e feliz, que as palavras de hoje seriam sobre o início e não o fim. A vida teve início para nós e não um fim. Antes, eram apenas especulações, expectativas, suposições. Mais do que nunca, este início nunca foi tão esperado.

E fico feliz em saber que todo dia 02 de fevereiro, do resto da minha vida, será o dia da alegria, do bolo. Será mais comemorado do que o Natal, Ano Novo, meu aniversário. Será o aniversário da minha filha, com bolo e refrigerante. Por fim, agradeço aos profissionais do Hospital Santa Maria, enfermeiras, médicos, técnicas. Obrigado para cada um de vocês, por nos cuidarem tão bem. Alguém deve lembrar dos sapatinhos. Pois então, eles serviram e são confortáveis. Narai Al Shackbur!

Ouvindo: Wherever You May Go do David Coverdale.

sábado, 24 de março de 2012

Woodstock

Ouvindo: Going Up The Country do Canned Heat.

            Queria eu ter nascido por volta de 1950. Caso isso tivesse ocorrido, teria dado um jeito de ir assistir ao Woodstock.  Teria lá meus 19 anos e, legalmente, “maior”. Poderia bater o pé com meus velhos e dizer: “Sou maior e estou indo para os esteites. Até breve!”. Claro que não seria bem como se visualiza, mas, como toda boa ficção, simples assim. Apenas para ver as bandas que até hoje eu admiro. That is it!


            Porém, hoje, um pouco mais idoso e avaliando como o mundo se comporta, pensaria duas vezes. Quem sabe assistiria pela televisão. Naquele gigantesco evento, realizado exatamente 11 anos antes d´eu vir a aparecer neste planeta, os pensamentos eram outros, distintos, quem sabe, mais verdadeiros. Aquela antiga trilogia do rock, mas que bem citarei. Mudaram-se os conceitos, as leis, os eventos, os ideais.

            Dificilmente daria aquele recado aos meus velhos. Bater a porta e seguir mundo afora, sem rumo, deixo para os escritores de livros, para os diretores de cinema, os roteiristas, enfim. Apenas fecho meus olhos e imagino, por uns segundos apenas, isso. Mas no fundo, nem me permitiria. Quando é algo que queremos, por vezes, não calculamos as conseqüências, enfim, coisa de criança.

             Mas hoje em dia, com os dias se aproximando, mais uns poucos safados dias que não passam para minha tão esperada filha nascer, ficaria **** caso ela chegasse e me dissesse aquela expressão da terceira frase do primeiro parágrafo. Nem pintada de rosa e com a voz dengosa de filha amada e querida. Quando o Brasil deixasse de lado a corrupção e vivêssemos honestamente e em segurança, eu, quem sabe, deixaria.

            Claro que os pais não colocam os filhos para eles mesmos, mas para o mundo. As pessoas pertencem ao mundo, não à um ou à outro. Mas, quando podemos tentar escolher o melhor para alguém, independente de quem seja, o faremos. São todas suposições da minha ansiosa mente. Apenas tento me colocar como filho, pois sou filho também, nos últimos meses com estas palavras e neste espaço.

            Sou filho e terei uma filha. Como filho, deu dores de cabeças aos meus velhos (mas não muitas). Quando se é pequenino, tudo é possível, tudo é fácil e nada custa. Tudo é de graça. “Paiê, me dá isso. Manhê, quero aquilo. - Não dá filho! Buááááá!” Não era assim com você? Mas, hoje, sabemos que não é bem assim. Nem nunca foi. Quem sabe estejamos num lugar com muitas pessoas. E pessoas são os piores seres vivos.

            Somos a única espécie que mata por dinheiro, rouba por diversão, come o que não precisa, joga fora comida, chuta o mendigo, bate na mulher e ouve pagode, sertanejo e bandinha. Palamordedio. Vivemos em um mundo inseguro e não queremos que, quem amamos, sofra algo na rua ou passe por dificuldades. A superproteção é inerente a vontade, ao desejo da liberdade do outro. Egoísmo.

            Convenhamos, não desejo cercar minha filhas por todos os lados e deixar a vida como um círculo fechado. Limites, são úteis e devem fazer parte. Contudo, onde é este limite? Onde inicia e onde finaliza? O que é bom pra mim é bom pra ela? O meu certo é o mesmo do dela? Como o exemplo inicial, do “estou indo”, quem sabe a minha alegria, possa ser a tristeza dela e vice-versa. Porém, se me convidar, irei junto...

Ouvindo: With A Little Help From My Friends do Joe Cocker. 

domingo, 18 de março de 2012

Novo ano

Ouvindo: Running Round do Warfield.

            Resta muito pouco tempo. O tempo de agora foi ontem. Tenho a impressão de que houve um salto no tempo. Quando fico a pensar no tempo, imagino ter sido ontem, algo bem recente, portanto. Ledo engano: o meu ontem faz oito meses. São dezenas de dias que se passaram, um após outro. Muito ocorreu, ao mesmo tempo que sinto que nada ocorreu.

            O Natal passou, o ano novo, os fogos e retornamos ao real, ao cotidiano. Interessante como todo final de ano sempre surge como se algo de mágico fosse ocorrer: encera o ano e tudo começa lindo e mudado, novo. Quando chega o dia 02 de janeiro, chegamos ao trabalho e avistamos que foi apenas mais um final de semana que passou e nada mudou. Mas a sensação de uma possível mudança é gostosa.

            Não sentia ansiedade até começar este ano. Porém, já sinto a ansiedade aumentar. Como a ansiedade de uma viagem tão planejada. Mudei sim. Pelo menos estou tentando. Não planejei. Apenas deixei algumas coisas com minha santinha, agradeci por tudo e segui meu rumo. Junto daquela ansiedade que contava linhas antes, vem a abstinência. E como é chata esta porcaria.

            Já engordei mais do que deveria, quem sabe mais do que a mãe da minha filha. Até no livro do bebê pede: quantos quilos engordou a mãe? E, pra me sacanear, quantos quilos engordou o pai? Resolvi parar de fumar e algo novo surgiu dentro de mim: a fome. Nunca senti tanta vontade de comer (qualquer coisa, principalmente doce) como estes últimos dias. A voltinha na janela também faz falta.

            Com isso, caminho pra lá e pra cá, ando mais nervoso do que o normal e sempre faminto. Sento alguns minutos a escrever e já fico pensando (e tentando lembrar) no que tem no refrigerador. E uma coisa que fico pensando neste momento: porque tudo que é bom engorda? Não me venha dizer que aquele chocolate sem açúcar é gostoso ou a Coca Diet é legal. Só química. A água nunca foi tão sem gosto como é hoje, mas ajuda.
            Não sei se fiz isso por minha vontade ou estimulado pela chegada da minha filha. O nome dela já foi escolhido, o quarto está todo pintadinho e lindo, os apetrechos todos organizados. Obrigado por isso tudo, Fá! Não comprei nada pra mim no Natal. Parar de fumar não é um presente para minha saúde, para eu aproveitar. Tento imaginar que fiz isso pelo mundo. Não garanto que nunca mais, mas estou me segurando bem.
            E o que faz esta dependência por um treco tão gostoso como é o cara ser tão boa? Não me critiquem por fazer apologia, pois não o estou. Apenas relato uma sensação, experiência pessoal. Fumar é bom sim. Há por nascer quem diga que não. Não pela dependência, mas pelo simples ato de fumar, aspirar aquela fumaça quente e depois jogar fora. Aquele que não gosta, paciência.

            Sempre há a questão de respeitar. Respeitar quem não fuma, como deve se respeitar quem fuma. A rua sempre tem dois lados. Bom para ambos. Esta de proibir fumo em tudo quanto é lugar é bobagem. Mais fácil proibir a produção, não é mesmo? Opa, um probleminha surgiria: os impostos. Contudo, acredito, apesar de tudo, que faço um bem pra minha saúde e para o bolso também. Ops, bateu a fome de novo...

Ouvindo: Growing Up  do John Sykes, Phil Lynott & Rick Wakeman. 

terça-feira, 13 de março de 2012

A delicadeza do homem

Ouvindo: Bohemian Rhapsody do Queen.

Pimenta nos olhos do outros é refresco. O homem sempre é um ser tão delicado com tudo, tanto quanto um elefante caminhando entre os pés de alface. Até poucos dias, todo bebê era igual. Com o rosto de joelho, inchadinho. Alguns até pareciam joelhos peludos, em razão da vasta cabeleira. Não me colocaram na frente do espelho quando nasci, mas não devo ter sido tão diferente.

Quando um amigo chega para visitar o filho do outro já vai dizendo: “mas que carinha de joelho mais fofa”. E olha que ele ainda foi delicado. O pai, todo feliz, ainda sorri e dá um abraço. A mãe, ainda bem que nem ouviu. Do contrário, alguma coisa sairia voando. Mãe é mais protetora. Homem é tão delicado e suave com este tipo de assunto, de visita, de momento.

Apesar de que ando repensando esta minha posição. A minha filha ainda nem nasceu e já ando pensando no que farei se alguém, bem contente amigo, me disser isso. Nem esperarei a mãe chegar. Alguma coisa voará em direção ao sujeito. Por isso a frase que inicia esta coluna. Quando é para os outros, é divertido. Com a gente, a história muda, a página vira e os personagens brigam.
Falta pouco. Quem sabe um mês, pouco menos, um pouco mais. Está fora do meu alcance. Sou favorável que ela venha quando ela pensar ser melhor. Que Pai do Céu converse com ela, ao pé do ouvido, e diga: “Filha, pode ir. Tem pessoas que te amam e te esperam ansiosas! Vai, que EU te protegerei!” Bah! Chorei! Não era para ser assim, mas sim um texto simples e alegre, contente, sorridente.



Mas, no fundo do meu coração, sei que Pai do Céu está pertinho dela, da mãe dela. Cuida tão bem delas quanto cuida de mim, desde que eu cheguei ao mundo. Como faz o mesmo com você. Devemos, nos obrigamos, a nos apoiar e acreditar em algo, independente de vermos e tocarmos ou não, de simplesmente, imaginar. Imaginar algo sem rosto, sem voz, sem forma, mas saber que existe.

O Natal, semana passada, foi mágico. Tivemos a oportunidade de bajular e sermos bajulados. Aliás, quase ninguém me viu. Nos últimos tempos, andam vendo apenas a pequenina. Mas nem me importo. Sei que estou perto e, quando der, alguém me abana e diz: “Bah! Nem te vi, mas que bom ver você!”. Foram momentos lindos, mágicos, mas rápidos. Um controle remoto e eu apertaria o pause ou o slow motion.

Pararia o tempo por alguns momentos mais e poderia aproveitar mais a minha turma de casa. Um para cada lado, de lados opostos, mas unidos pelo amor de família. E cada ano maior. Isso é o importante da vida: o amor de quem a gente ama. De amar, ser amado, brincar e sorrir. Chorar, se necessário, mas de emoção pela chegada e pela partida. E, dentro de alguns dias, chorarei pela chegada.

De qualquer forma, para você que está debruçado sobre o jornal, deixe seu vizinho, seu irmão, pai ou mãe, ler também. Quero desejar um 2012 lindo para você. Quero que quem estiver perto de você seja abraçado também. Um abraço conjunto, grande e gordo. Bem apertado de felicidades para todos nós no ano que chega em pouco tempo. Deus nos guie e ilumine novamente. Amém!

Ouvindo: Take It As It Comes do Ramones.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O gato e eu



Ouvindo: Great Expectations do Kiss.

Como é bom chegar em casa e ir ver o quartinho da minha filha. Aliás, primeiramente ser recepcionado com um belo miado, dengoso e pedinte, e depois ver o quão belo está o espaço. Ainda falta uma coisinha que outra, mas o “grosso” está feito. Bem pintadinho, com os móveis instalados, o bercinho da cor do quarto, da mesma forma o roupeirinho e a comodazinha. Tudo ‘inho’ e ‘inha’ e quase igual.

Caso dependesse apenas da minha pessoa, não teria nada. Mulher é melhor nisso. Aliás, em quase tudo. Mais despachada com tudo. Deve ser o sentimento de mãe. Acredito que o homem já deixaria tudo pra última hora. Como naquele caso da torneira pingando. Vai e coloca um remendo provisório (e que deve durar a vida inteira) e depois vê como fica.


Até porque não podemos perder compromissos importantes como a novela das oito ou o filme do Chuck Norris. Nunca que um sujeito em sã consciência perderia um evento desta natureza. A torneira que espere! E com os apetrechos do bebê da mesma forma. Comento isso por mim e não generalizo. Não que eu seja um sujeito ruim e despreocupado com tudo, mas uma fralda é mais importante do que a roupa.

Graças ao meu bom Papai do Céu que tenho um ser único ao meu lado. Apenas sirvo de apoio e atrapalho quando posso. Aliás, o gato e eu. Enquanto a mãe arruma, os dois atrapalham. Tento me imaginar quando ela nascer. E falta pouco! No trabalho me pediram o que eu quero de presente de amigo-secreto. Sugestões. Coloquei fralda e discriminei tamanho e marca. Assim não erram.

No ano passado criei certa experiência com isso tudo.  Amamentação, modelo de fralda, o que não dar de comer, como fazer papinha, os horários para dormir, os ruídos, as visitas, se está frio ou calor pro bebê, coisas assim. Fiz um inesquecível (e com saudades imensas da minha sobrinha) curso intensivo. E sabe, sinto saudades gigantescas disso tudo.

Outra coisa, chega fim do ano e a nostalgia parece que aumenta. Chega a doer o peito. Sinto tantas saudades dos meus amores, as minhas sobrinhas. Caso já seja meio dengoso com elas, tento me imaginar com a minha filha. Família é tudo. Não que devamos estar sempre juntos, grudados, perto. Até porque isso parece que afasta um pouco. Quando há o reencontro, vem a emoção.
E é desta emoção que estou sentido falta. Sentir o cheirinho de minhas manas, meus cunhados, das minhas sobrinhas, da minha veia, do gato preto (e Negão), do meu pai. Tenho de ir tirar um tempo e ir visitá-lo no cemitério. Triste, mas é verdade e ponto. De qualquer forma, já sinto saudades de um ser que ainda nem chegou. Quero ver o rostinho dela e sentir o cheirinho bom (e não apenas em foto de ultrassom).

Estivemos em um estúdio para tirar as fotos ontem. As roupas forma escolhidas com cautela. Apenas tive de me endireitar e ficar bonito para mostrar pra ela quando começar a compreender tudo melhor, ficar maior. E fui com as camisetas que peguei especialmente para isso, de uma banda que ela ouvirá comigo. Uma pra mim e outra pra ela, pequena, mas não tanto quanto eu gostaria. Já estou ansioso pela chegada do Natal, do Ano Novo, da vida nova...

Ouvindo: A Hard Rain's a-Gonna Fall do Bob Dylan.


sexta-feira, 2 de março de 2012

Nomes

Ouvindo: Push do Matchbox 20

Fico imaginando o quão complexo é escolher um nome. Caso já seja difícil nominar um gato (o gato animal), imagine um ser humano, uma pessoa. Isso tem de ser muito bem pensado, pois seguirá o fulaninho(a) pelo resto de seus dias, ou até que a Justiça o liberte desta praga imposta pelo pai (ou pela mãe). Convenhamos, concordo com nomes diferentes, mas maltratar o rebento é 'pacabá'. Os pais deveriam ser presos!

Posso afirmar isso com razão. Meu nome é diferente. Sim, bem diferente. Existem poucos no mundo. A parte boa é que nunca tem nome repetido na sala de aula. Distinguem-se os estudantes pelo sobrenome. Mas além de diferente, o meu é looongo. São cinco nomes que fazem parte do meu nome. Complicado? Não, orgulhoso. 


Meu velho, que já se foi para o além, quis seguir o que meu avô (e seu pai, consequentemente) fez: homenageou os dois avós e as duas famílias. Resultado: cinco nomes. Lembro como se fosse ontem quando as professores reuniam todos os estudantes do turno no pátio e começavam a chamar os nomes, para formar a turma. Para não dar erro, convocavam pelo nome completo.

Chegava a minha hora e ia a professora: “Iaran Antônio Iz...”. Nem terminava de dizer e já estava eu gritando para parar que eu era o único na escola e ponto. Assim economizava-se tempo. E todos os anos foram assim. Chegou um momento em que a professora, quase sempre a mesma, já ficava me procurando e apontava. “Iaran, tu vais ficar nesta turma”. Creio que era a 7ª ou 8ª série.

E já ia bem feliz, olhando pra ver se tinha carne nova na turma. Até porque, quase todos se conheciam e poucos eram os novatos na escola. Uma transferência que outra. Hoje nem sei se mais é assim. Tive colegas que nos conhecemos no maternal e fomos até o antigo 2º Grau. Sempre juntos. Já os nomes eram sempre conhecidos. Mas nome diferente causa estranheza e é motivo do atual bullying.

No meu tempo nem era bullying. Era uma encheção do capeta mesmo. O sujeito com nome estranho, basicamente o novato, era já taxado com algum apelido. Mas depois passava. Ou pior, ficava. Meu velho me chamava todo dia de algo diferente: negão, macaco, jacaré, o titular Neno, filho. Dependia da lua do veterano. Mas era carinhoso e sinto saudades, mas deixa papo triste de lado. Hoje eu gosto do meu.

Pensando bem, escolher nome é uma responsabilidade eterna. Tem de relevar não apenas o que o pai, a mãe, os tios, a família gosta, mas o que o filho(a) pensará sobre isso. Já não é mais permitido colocar nome feio nos filhos. Ainda bem. Porém, deveria ser permitido que o filho(ao), quando maior de idade, possa escolher seu próprio nome. Seria um nome temporário.

Na pior das hipóteses, contrariaria os pais, mudaria todos os documentos, revolucionaria os sistemas de informação, mas deixaria uma pessoa com nome estranho (por culpa do pai ou da mãe) mais feliz. Importante é ser feliz e deixar que sejam felizes. Isso é o que temos de dar aos filhos: o máximo de felicidade possível. O nome da minha filha já está escolhido e espero que ela goste, como eu já a amo.

Ouvindo: Black Days do John Sykes.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Escolhas

Ouvindo: Living After Midnight do Judas Priest.

Quando assisti ao show do Judas, anos atrás, não tocaram este som. Não pude ouvir da voz em falsete do Rob Halford uma das primeiras músicas que escutei destes britânicos. Não que seja apaixonado pela banda, mas aprecio. Até porque são conhecidos por incluírem a velocidade e muito peso no heavy/hard rock. Aquele sujeito, que outrora era cabeludo, passou a exibir uma careca invejável. Bom, depois assumiu sua homossexualidade, etc, mas não vem ao caso.

São situações que muitos se deparam durante a vida. Podem teimar em ser isso ou aquilo, e batem pé: não, não e não! A questão é assumir. Alguns assumem, outros não. Aliás, o Halford foi o primeiro roqueiro, que tenho conhecimento, que assumiu, durante um show, sua opção sexual. Dias atrás foi o Ricky Martin, teve o Freddie Mercury. Devem ter vários outros, mas problema deles. Cada um com suas opções e ponto. Ponto final só porque não é com a gente. Como lidar com uma escolha assim?


Nem sei o motivo que me veio em mente sobre tal assunto, mas tento transmitir a questão de opções. Optamos por tudo na vida (ou quase tudo).  Quem sabe até nascermos é questão de opção, de escolha. Escolhemos dar um “chega-pra-lá” naquele espermatozóide que estava na frente ou ao lado e nos inserimos no útero da Mamá. Poderíamos ter deixado para outro sujeitinho vir ao mundo, mas quem sabe seja escolha, mesmo que inconsciente.

E conforme o tempo vai passando vamos escolhendo. Optamos por esta roupa, por aquele tênis, aquele sapato, aquela televisão, aquele programa de televisão, este curso, esta vida. Opa! Esta vida? Que vida escolhemos? Ou escolheram por nós? Queria eu ter uma vida onde não assistisse a tragédias diárias, que não ficasse sabendo de falcatruas, de crimes, de fome, de sede, de cidadão sem roupa ou casa para viver. Queria eu poder escolher viver num mundo em que pese a igualdade e não o desigual.

Sonho, cada vez mais, em como será o meu Brasil dentro de uns 10 ou 15 anos. Isso porque queria ser vidente a ponto de saber onde poderei criar minha filha e o que poderei oferecer para ela. Esta opção eu não quero que o mundo dê para ela. Quero eu poder mostrar um caminho bom para ela. O mundo que presenciamos está suspenso em falsas atrações, sejam drogas, violência, o sertanejo e as bandinhas. É, tem coisas que não desejo que ela opte. Baterei o pé e fecharei a porta, se necessário.

            Pode ser fácil tentar simular isso antes de presenciar. Bom, é um caminho. A teoria sempre é mais simples. Criar uma filha não deve ser tão simples quanto nos pareceu aos nossos pais. Nem sei se já perguntei pra minha Mamá se foi fácil criar, educar, incentivar ao aprendizado, e dar de comer para minhas irmãs e para este guloso. Aparentemente foi simples e fácil, já que sou um sujeito bem legal, querido e humilde (sic!). Minhas irmãs também são tudo isso e muito mais.

            Apenas espero que possa ver a minha pequenina feliz no ambiente que for criada, independente da marca da roupa, da cor do sapatinho, do tamanho da televisão. Apenas sei que, musicalmente falando, ela terá um incentivo muito grande e forte, tanto do pai quanto da Mamá dela.  Ouvir as canções calminhas da Mamá dela já faz efeito e, na barriga, já se debate. Quem sabe goste. Mas quando ela nascer, poderei sentar com ela e mostrar (e fazer ouvir) o que o pai dela foi criado e educado a apreciar.

Ouvindo: Poison do MC5.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A corrosão da alma

Ouvindo: The Sky Is Crying do The Yardbirds.

Há algo mais perturbador do que o sofrimento? Pode-se dizer que a dor de um machucado é ruim demais, mas com um remedinho ela “some”. Mas a dor do sofrimento não passa. Pode ingerir o medicamento que for, mas a dor não passa. Ainda está por surgir um remedinho para acalentar a dor contida no interior coração, no mais profundo cantinho de nosso coração. Existem alguns pesquisadores se dedicando nisso, mas nada de útil até agora.
Dias atrás estive lendo algo a respeito do sofrimento. Há pessoas que padecem pelo sofrimento. Desta dor mental, surgem outras mazelas que o corpo humano não suporta e não se cura; definha. Até onde será que conseguimos suportar o sofrimento, aquela dor insuportável que nos acomete de tempos em tempos? Pode-se dizer que ela nunca surge, mas ela aparece. Mesmo sem querer ou razão, ela surge, como uma fênix das cinzas.
Tento imaginar que sofremos por que queremos ou por que nos permitimos? São insinuações dúbias ou semelhantes, mas distintas. Querer tem um contexto, permitir outro. Posso querer algo, mas não ser permitido. Posso ser permitido a fazer algo, mas não querer. Indiferente a razão pela qual queremos isso ou aquilo, optamos, e acabamos sofrendo. Sem dor ou sofrimento não há razão de seguir. Até super-homem chorou em um dos filmes!
Pelo sim ou pelo não, motiva-me refletir sobre o querer lutar e sofrer, mas não se entregar.  Enxuga-me minhas lágrimas que eu quero ver onde estou e quem me fere! Quero ver o rosto de quem me causa dor, sofrimento.  Erga-se deste chão úmido e tenha coragem de cerrar seus olhos sobre os meus. Entretanto, quem me faz sofrer? Neste ponto é que surge o “permitir”. E este “permitir” já é assumir parte da responsabilidade.



            Esta corrosão do interior penetra a alma, que penetra o corpo, que penetra as veias, sangue e padece. Padece por não ter mais razões plausíveis de seguir, de lutar, de levantar a cabeça e olhar para quem o abate. Encosta sua mão no chão, cerre os punhos e levante-se. Pode não ser simples, tampouco fácil, mas é a única arma que tem. Ninguém fará isso por você. Unte sua força com o desejo de viver.


            Deste mistifório pode refazer as chagas deixadas, do sentimento de um corte profundo e que, algum dia, sarará. Cedo ou tarde, o corte se fechará e a lembrança persistirá. Mas não olhe a marca deixada pensando no sofrimento, mas na força que teve de cerrar os punhos e levantar. Algo brilhante logo surgirá. Tão logo deixará de recordar as chagas advindas do sofrimento para enaltecer as conquistas de não pertencer mais ao chão.
            Isso porque passamos muitas coisas ruins durante a vida; seja quando crianças, quando adolescentes, quando adultos. Todos, sem exceção, passam por alguma chaga interna. E olhe em sua volta: onde está?  Vivo, não? Então, resta aproveitar destas marcas e sorrir para elas, lutar sem medo e dar a cara ao próximo que quiser bater. Parar e pensar...  pensar no futuro. Meu futuro está chegando... e conto os dias para que se faça em luz!!

Ouvindo: She Did It To Me do Slade.

A educação de meu pai



Ouvindo: Desperate People do Living Colour.


Quando crianças, somos incentivados a aprender. Incentivados ou obrigados. Faz parte do nosso contínuo desenvolvimento como ser humano, como gente, como cidadão. Quando mais velhos, tudo o que aprendemos - grande parte de nossos pais - já não serve mais como parâmetro. O mundo muda nossas atitudes a cada instante. Quem sabe aceitamos estas mudanças, consciente ou inconscientemente.
Isso me leva a repensar sobre o que aprendi, o que aprendo e o que ensinarei. Até porque esta é uma grande preocupação que tenho. Será que o que me foi ensinado valerá para daqui alguns anos? Da forma como me ensinaram será suficientemente salutar para aquele ser que, quiçá, servirei de exemplo? Algumas ações sim, outros quem sabe, outras, porém, não.
Muitos de vocês devem ter começado a vida e até seus 10, 13 anos, recebendo a educação de: filho(a), você é o primeiro a obedecer e o último a falar! Ai de quem dissesse: mas eu...! Pode ter certeza que seria um cascudo ou, no mínimo, você e o quarto. Mas será esta mesma a educação que devo repassar? Depois de “grande”, aprendi que respeitar é fundamental, mas obedecer nem tanto.
Não terminei ainda, mas estava pensando em um filme que vi ontem: A Árvore da Vida. Trata do relacionamento de pais e filhos. A mãe superprotetora (como a maior parte o é) e do pai rígido (carrancudo e querendo que os filhos sejam, no mínimo, como ele). Um dos filhos morre e a tristeza impera. Até esta parte é compreensível a tristeza e o abatimento. Mas, os filhos crescem.
Um deles, o mais velho, é quem sempre foi “ensinado” a ser o melhor em tudo – até que o próprio pai - e, com razão, acabava sentindo um certo ciúme dos irmãos. Passados anos, o mesmo filho se torna um cara de extremo sucesso, certamente recebendo louros do pai. Porém, algo o persegue: a tristeza. Passa a viver pensando que foi culpado pela morte do irmão, sente um vazio gigante e a infelicidade o transtorna.
Muito deste sucesso foi motivado pelas forçadas tentativas do pai. Por um lado, obteve êxito o velho ao ensinar ser forte e ser o melhor entre todos. Mas não ensinou qual o peso que ele teria de carregar sobre as costas para obter tal sucesso. Volto a pensar sobre o que devo ensinar para minha filha. Passo uma inconstância entre alegria e angústia. A felicidade de ver o pezinho gordinho e a criança que crescerá.
Não é cedo demais para pensar e já estudar psicologia, psicopedagogia, educação infantil ou medicina. Quero saber de tudo, a fim de ensinar o que pode ser o melhor. Ou quem sabe estou me precipitando e deixando algo que deve vir com o tempo? Devo estar sempre perto para ajudar no que for possível ou deixar que se desenvolva sozinha? Uma dúvida que vem surge como pai e como filho.

Ouvindo: Carry on Wayward Son do Kansas.